Jonathan mostrou às gurias da turma que não era apenas bom aluno, também sabia mexer as orelhas. Moveu uma, moveu outra, fez as duas mexerem-se ao mesmo tempo. Nenhuma das mocinhas, entretanto, queria se encantar por ele – gostavam de um outro, bobo e bonito.
Quando entendeu que saber brincar com as orelhas não garantia a atenção de que precisava naquela idade, perguntou a um colega:
– A que horas mesmo é a Educação Física?
– No quinto período – disseram.
Não passava das oito e vinte quando decidiu dedicar-se a outra habilidade que tinha. Enquanto fazia umas continhas fáceis de Matemática, Jonathan agora ia deslocar o próprio cérebro, levá-lo a passear pelo corpo.
Ele já vinha praticando a estripulia há uns meses em casa, no quarto, ao mesmo tempo em que obedecia às ordens que a mãe gritava da cozinha: “Arruma tua cama!” ou “Ajuda teu irmão nas tarefas dele!”
No colégio, nunca tinha tentado.
Primeiro, e sem muita dificuldade, levou o cérebro até o pescoço. Ali, para quem o visse (e ninguém o via), aquele inchaço parecia um bócio. Mas com a respiração ficando difícil, logo engoliu a bolota, que foi parar no meio do peito.
A massa cinzenta, dividindo espaço agora com um coração pulsante, fazia volume embaixo da camiseta. Mas o menino não tinha preocupações de guardar segredos, ninguém notava o Jonathan.
Antes do recreio, mandou, com um movimento de abdômen, o cérebro para a parte de cima da coxa direita. Enquanto todos guardavam os cadernos para esperar o sinal, ele avisou o professor que, durante o intervalo, ficaria na sala. Ali, sozinho, aproveitaria para fazer descer aquela gelatina mais um pouco.
Não foi tão fácil, porém. O cérebro empacou ao chegar no joelho.
Com o recreio terminado e todos de volta à sala, o garoto sentiu que precisaria de mais dedicação. Como quem pisa em pedal de bumbo, foi tocando a bateria necessária para fazer descer o deslocado órgão até a extremidade da perna. Nem a professora, tão acostumada à barulheira das salas de aula, nem os colegas, preocupados em produzir seus próprios barulhos, notaram a batucada que ele compunha. Aquele heavy metal chegou ao final minutos antes do fim do quarto período.
Ansioso que estava, Jonathan não quis esperar para ver se o convidavam para ficar no gol. Pela primeira vez, aproveitou-se do seu tamanho e se escalou para jogar na linha. Ok, disseram todos. Quem ousaria ir contra aquele sujeito grande, que à tarde trabalhava de ajudante de pai pedreiro?
Não demorou muito para ele mostrar do que era capaz, agora que tinha o cérebro na ponta do pé direito.
Os três primeiros lançamentos foram de deixar o atacante da sua equipe na cara do gol. Ninguém conseguia acreditar naquelas façanhas todas; não obstante, ele continuou a dar outros passes de gol fácil para coleguinhas pouco habituados com o jogo se consagrarem. Além disso, fez ele próprio uns dois, de chute colocado, sem chance para o outro goleiro. O jogo de colégio, segundo o professor Marcos, terminou em 17 a 4.
Depois de pegar a mochila para ir embora, Jonathan comentou que os quatro gols que o time levou foi culpa dele mesmo, que estava, naquele dia, um tanto cabeça oca.
Despediu-se do enxame de colegas, entrou no carro antigo do pai e logo colocou a mochila em cima do gordo pé direito. Só para disfarçar. O velho dele não era bobo, bem diferente da gurizada da escola.