quinta-feira, 15 de março de 2012

poema do descompasso

a vida
que existe na minha vida
não existe

não há nada
tudo finda antes do começo

assim eu durmo
na hora de acordar

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

poema do crioulo doido

ando louco
muito louco
doido varrido

sem norte
centro ou sul

e tudo
desde que a conheci

sei lá onde
sei lá quando

sábado, 29 de outubro de 2011

retorno

a casa da minha infância
fica há quase
40 anos daqui

distâncias de não percorrer
que jeito têm?

há 12 andares
de luxo e sacadas
sobre minha casa de madeira

e sinal nenhum
dos pessegueiros

dia desses
andei andei andei
e (impossível?) cheguei
à casa da minha infância:

foto em preto e branco
num álbum esquecido
dentro do armário

domingo, 9 de outubro de 2011

vozes da estante

Hemingway, no seu Paris é uma festa, contou-nos que ao sentir-se vazio de ideias, parava de escrever por um momento, levantava-se e dava tempo ao tempo; então dizia a si mesmo: “você sempre escreveu antes e vai escrever agora. Tudo que tem a fazer é escrever uma frase verdadeira. Escreva a frase mais verdadeira que puder”. Daí ia adiante em seu conto.

Eduardo Galeano, numa conversa com Ruy Carlos Ostermann durante uma Feira do Livro de Porto Alegre, falou-nos que escreve quando a mão coça.

O método do Hemingway era o seguinte: li que ele escrevia todos os dias para apurar seu estilo. Dessa lavoura cultivada, colheu O velho e o mar, O sol também se levanta, uma imensidade de contos e, além de outros títulos, um Nobel de Literatura em 1954.

O segundo é, hoje, o mais popular - no melhor sentido - escritor latino-americano e tem sob sua assinatura O livro dos abraços, Bocas do tempo, Futebol ao sol e à sombra e, além de outros títulos, o cultuado As veias abertas da América Latina.

Não saberia fazer comparações outras para medir de qual autor gosto mais; nem mesmo sabendo me quereria dar a este trabalho. São os dois da minha estante que mais me impelem à escrita.

Por causa do velho Hem que comecei a escrever prosa; e por causa do Galeano que venho me aventurando em crônicas.

Outro autor, mais recente na minha estante, o poeta grego Konstantinos Kaváfis, escreveu no livro Reflexões sobre poesia e ética algo que também me põe sorriso no rosto. Disse: “quantas vezes, durante o horário de trabalho, não me vem uma bela ideia, uma imagem inusitada, uns versos imprevistos prontos, que me vejo compelido a negligenciar porque o serviço não pode ser adiado. De volta a casa, [...] tento lembrá-los, mas em vão. [...] Como se a Arte me dissesse: ‘Eu não sou uma criada para que me dispenses quando me apresento e me apresente quando me chamas [...] e nos raros momentos em que eu te apareça, cuida de estar pronto para me receberes, esperando-me à porta, onde deverias estar todo dia’”.

A metáfora da porta pode significar estar sempre à espera de que a mão coce; ou então de estar sempre à máquina, treinando o estilo, para quando a boa ideia surgir.

Sei . De qualquer modo, são três autores que têm o que dizer para quem pretende um dia ser também autor. Ou pai. Ou professor. Ou atendente em farmácia...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

susto

de planetamilcores.blogspot.com
no vaso sem graça
a planta sem graça
abriu-se

pouca água via
sol quase nenhum

era julho pleno
quando veio a flor

num móvel antigo da sala
a primavera

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

pulga

Hoje, com a intenção de depois mostrar aos alunos de 5ª série o "grau dos substantivos e dos adjetivos", peguei o livro didático, distribuí um para cada um e pedi que lessem o poema "Santo do dia", da Sylvia Orthof. 

"Dia de São João,
fogueira e clarão.

Dia de São Pedro,
barquinho no mar.

Mas tadinho de São Nunca,
seu dia custa a chegar:
não foi ontem, não é hoje,
amanhã... Nunca será?"

Lido o texto, foram à interpretação e demais perguntas. A turma, meio quieta, meio barulhenta (sempre os mesmos!), ia fingindo fazer a tarefa e a fazendo de verdade. 

E eu ia mantendo aquele meu silêncio interno, próprio de quem sabe como as coisas funcionam. Até que um dos menores da turma, falando mais sozinho que comigo, disse: 

- A poesia é uma pulga.

Retirado do meu silêncio, olhei para o Brian: "O quê?"

- Tá escrito aqui: "A poesia é uma pulga" - repetiu e apontou para umas letrinhas difíceis de ver ao fim do texto.

Era o título do livro de onde o poema fora tirado. Aproveitei a deixa: "Sabe por que isso?"

- Não - sorriu.

- Porque ela pula no teu braço, te dá uma picada e te deixa uma marquinha e uma coceira difícil de não coçar.

Ele continuou sorrindo, balançou a cabeça e disse "Não é não!" de um jeito que, entendi, suspeitava que eu estava certo. O Brian, ali, já tinha sido picado.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Quase uma parábola

Chego no posto bem cedinho, ponho o uniforme, boné e tudo. Escolhi essa profissão porque tenho na cabeça há muito tempo minha missão – fazer as pessoas irem longe. Pôr combustível no carro de quem vem aqui é a maneira mais certeira de fazer isso.

Difícil que eu me incomode no serviço. O chefe (na verdade todo mundo que me conhece) diz: “o cliente tem sempre razão”. E assim as coisas vão fluindo. À exceção de ontem. Por causa de ontem, até perdi o sono.

Um cara chegou de carro e parou, como se fosse abastecer, quase em frente à bomba de combustível. Estendi meus braços num gesto que dizia: “vem mais pra frente, cidadão”. Ele fez que não com a cabeça, abriu o vidro e quis me alcançar uma nota de 20. Fui me chegando e ele pediu, apressado: “Não quero gasolina, chapa. Compra uma carteira de cigarros e fósforos pra mim ali, valeu?”, e apontou para a loja de conveniências.

Tinha gente atrás dele esperando a vez de abastecer, acho que dois ou três carros que, por causa dum idiota, não podiam ir a lugar algum. Mandei na hora o cara pra puta que o pariu, bem alto. Logo, um colega meu que devia estar vendo tudo veio e me substituiu.

Esse motorista de ontem fez eu me lembrar do meu emprego anterior. Também acordava cedo. Também queria fazer as pessoas irem mais longe. Mas a gurizada de tudo que foi escola onde lecionei ia para a aula com várias intenções, menos aprender.

Meu, fazia tempo que eu não perdia a paciência!

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

vossa vontade

entrou pela janela
a luz da lua

subiu os pés da cama
alcançou os nossos

lambeu-nos o corpo
inteiro, até os
travesseiros

abençoava o leito
abençoava os amantes

mas filho nenhum veio

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

meu nome

à pergunta
quem tu és
o meu nome não responde

outras maneiras há
de me saber

pergunta ao pai
à mãe minhas irmãs –
todos mentirão

assim terás uma pista

na escola onde trabalho
nos bairros em que ando
nos bares todos do centro
nada se dirá

não dispensa o desinforme

vê nas estantes os livros
no armário as roupas
ou meus sapatos poucos

não existe qualquer pegada
nem um cabelo em manga caído

cartas anônimas chegam –
o que dirão
que me contem?

dobra o papel
e guarda-o no envelope
esquece

outras maneiras há
de me saber

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

de agora em diante


todos os dias serão impossíveis
de agora em diante

mas ainda
é possível que me vejas por aí
que saibas de mim
e dês teu bom-dia até
quem sabe

eu a caminho do trabalho
um guarda-chuva enganchado
no braço
com pressa até
quem sabe

sim, é bem possível

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ruivos

Foi numa manhã de sexta-feira. O gerente a pegou no depósito e a levou para cima, para deixá-la exposta na vitrine da loja.

Assim que ela viu as cortinas de ferro subirem e o dia azul se mostrar lá fora, aquela bicicleta começou a sonhar com os passeios que faria com o menino ou a menina que a ganhasse. Na verdade, preferia que fosse um menino. Afinal eram todos meninos os heróis das lendas que até então ouvira.

Não demorou muito, um guri cheio de sardas nas bochechas começou a namorá-la da calçada. Ele apontava para as rodas e ela fazia brilhar mais os aros; ele mostrava ao pai que a cor (vermelha) combinaria com seus cabelos e ela já ia se imaginando montada por aquele ruivinho.

Mas o pai, em negativa, balançava a cabeça e levava a mão direita ao bolso, a dizer ao filho que não podia, não naquele momento de crise.

E era verdade. Naquele país tropical, poucos eram os que tinham condição de comprar qualquer coisa, até mesmo na promoção, como era o caso daquela bicicleta.

Por isso, ali mesmo na vitrine, ela foi perdendo a cor e o brilho. Só muito tempo depois (a loja inclusive trocara de nome), é que foi vendida. Deram por ela a metade da metade do preço primeiro. E o menino que a ganhou, pelo que se soube, não lhe deu importância nenhuma. Deixou-a esquecida na garagem, junto à caixa de ferramentas do pai.

E dizem que é assim que vive, até hoje, a bicicleta vermelha que sonhava com passeios cheios de aventuras - ela e um pequeno ruivinho, nas tardes quentes, depois que ele chegasse da escola.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

deveres

tirar do caminhão
a mesa e o televisor
os pratos cadeiras
a geladeira

desfazer as malas

pregar velhos quadros
em paredes novas

da casa antiga
não deixar o pó
dos livros

pôr tudo em ordem
girar o registro d’água
ligar o interruptor de luz

fingir recomeço

terça-feira, 2 de agosto de 2011

verbo 21

Foram publicados três poemas de minha autoria no verbo 21. Tudo pelo intermédio do Sidnei Schneider.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

As ilhas


Chove aos bocados e, dentro da sala de aula, há quatro ilhas. E cada ilha é um grupo de alunos. Dentre tudo que forma a cena, eu destoo. Na sala da turma 82, todos fingem responder questões sobre concordância verbal nas páginas de um livro azul.

Penso em lhes falar, mas me travo. Não quero dizer simplesmente que deixem a conversa de lado, que se empenhem. Queria apenas falar sobre o que me martela a cabeça.

Não consigo. Minha boca chega a abrir, mas alguma coisa em mim desiste.

E isso me faz lembrar de um amigo que, há poucos dias, quis contar uma novidade. Começou assim: “Faz dias que tenho algo pra te falar, mas estou sem coragem”. Calou, sorriu e pôs um olhar vacilante sobre mim. Mordia-se, num misto de vontade de falar e de vergonha. E eu ali, curioso já, com minha inevitável mania de tentar adivinhar mistérios.

Por fim, contou. Fiquei sabendo de algo que sequer cheguei perto de imaginar. Mas o que importa dizer é que, com as primeiras palavras dele, vieram outras tantas, e o tempo, que a todos persegue, passou complacente naquela nossa mesa de bar.

Assim desejava que fosse hoje nesta sala de aula. Eu abriria a boca e tudo (ou muito) seria dito. E haveria respostas. Porque meninos e meninas de quatorze anos também têm o que dizer. E o conto do Bradbury, sobre um homem cansado de tecnologia por todo lado, seria rido, tocado de um canto a outro da sala, igual a bolinhas de papel. Eles se surpreenderiam com o fato de que um autor, em meados do século XX, pudesse ser tão certeiro com o que acontece a essa altura do século XXI.

Mas na minha cabeça fico a me perguntar: “Vale a pena interrompê-los?” Ou “Saberão mesmo ouvir sobre um autor que desconhecem?” Ou “Faço bem em não falar nada do que tenho vontade?”

A eles não digo nada. Nem uma palavra.

Até que de uma ilha vejo uma mão se erguer.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Maira e um conto de Bradbury

Minha personagem preferida é a Maira, e ela tem, além de outros dons, o dom de me dar histórias.

Nos últimos dias, esse meu amor de sempre passou sem poder ler. Fez uma cirurgia para tirar 17 graus de miopia do olho esquerdo; e o médico advertiu que leitura só depois de tudo cicatrizado e revisado. 

Foram 14 dias mais ou menos até voltar a abrir um livro ou coisa parecida. 

Nesse intervalo, que parece pouco pra quem não tem o hábito de ler, li alguns poemas e contos pra ela. E numa viagem a Pelotas, levei "Os frutos dourados do sol", do Ray Bradbury. 

- Tô louca pra ouvir uma história desse livro. Lê uma pra mim? - me pediu.

E escolhi qualquer uma, que, no caso, foi "O pedestre", história que se passa na década de 50 do século 21, quando um homem que tem o hábito de caminhar à noite é interrogado por uma voz metálica que vem de dentro de um carro vazio de polícia. 

A voz não entende que alguém tenha o hábito de caminhar sozinho à noite, uma vez que ninguém mais faz isso, todos ficam em casa assistindo à tevê. 

Por fim, o homem (um escritor!) é detido para ser interrogado tão logo confessa não possuir um aparelho de tevê em casa. Entra no carro vazio e é levado para uma delegacia. No caminho, o carro passa por uma casa clara, de luzes acesas e sem grades ao seu redor. Uma casa que destoa de todas as outras - a casa do escritor detido.

- Estamos caminhando nesse sentido - comenta a cabisbaixa Maira, ainda sem saber que daqui a pouco teremos mais uma novela à disposição. A novela das 11.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Vidinha

Num esforço bem maior que o de ficar suspensa na ponta dos pés, a bailarina saltou para fora da caixinha de música.

Cansada daquela vida de sempre, foi correr atrás de coisas novas.

Hoje desfila pelo bairro em que mora a barriga de gêmeos, enquanto se dirige ao armarinho do sogro, onde o trabalho é garantido de segunda a sábado. 

E, para as colegas de balcão, reclama que não lhe deram chance no estúdio de dança. Disseram que seus movimentos eram muito duros.

domingo, 26 de junho de 2011

Café da manhã uruguaio

A ideia era boa: sair de Porto Alegre à meia-noite de uma quarta-feira véspera de feriado. 

Isso porque a intenção era chegar bem cedo, tomar café da manhã na Rodoviária de Jaguarão e esperar a hora de irmos a Rio Branco, do outro lado da ponte. 

Mas aconteceu que a Rodoviária era só uma rodoviária, um prédio cinza naquela manhã cinza às seis horas, quase. O café que esperávamos tomar não tinha onde e, para piorar, assim que fomos à procura de um pouso, começou a chuva.

Nos hoteizinhos e pousadas que achamos, todos tinham a mesma resposta: "É feriado, vocês deviam ter feito reserva".

Então, a fome aumentou, o sono aumentou, o frio aumentou. Com as roupas e as botas molhadas, conseguimos um táxi só depois das oito. 

- Direto para o Uruguai, por favor - pedimos.
- Vão para as compras? 
- Não - dissemos. - Queremos apenas um café. 

O motorista riu e, em seguida, nos deixou na frente de uma padariazinha de nada. 

Úmidos, pedimos café e croissants. Olhamos em volta e não vimos mesa para sentar. Dez outras almas esperavam seus pedidos naquele quadrado. 

Com o bule na mão, a dona olhou para mim e para a Maira e disse em espanhol:

- Vocês dois, venham aqui, sentem-se.

Passamos para os fundos da padaria, uma peça que pertencia à casa em que morava com uma filha. Colocou as xícaras em cima de uma mesa, trouxe o açucareiro e nos desejou uma boa refeição. 

Nosso dia começava a ser salvo. Tomamos café com um choro entalado na garganta.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

haicai

noite nublada
daqui a pouco a chuva –
música para ninar

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Seu Américo ia amando

gravura de João Werner

São tantas as histórias de marido flagrado com outra pela esposa que não sei se vale pena contar mais uma. Ainda mais que fiquei sabendo dessa uma à maneira do “telefone sem fio”, aquela brincadeira, lembram?

Eram ainda os dias das minhas férias e eu recém tinha chegado de viagem. Saudoso de Porto Alegre, fui ao centro beber cerveja e comer coxinhas de galinha. Quando ia para a terceira de ambas, sei lá eu quem pediu licença para sentar-se a minha mesa. Sem apresentar-se, foi dizendo que sua irmã lhe contou que ouvira a vizinha confidenciando para uma amiga que seu Américo – que também ignoro quem seja – fora flagrado cometendo adultério.

Fiz menção de interromper o sujeito, uma vez que o dia estava agradável e não queria desperdiçá-lo ouvindo fofocas do tipo. Mas o cara não me deu brecha, e emendou falando que uma tal Marilda que vendia cosméticos, numa tarde de poucas clientes e muito calor, decidiu ir para casa mais cedo e pôr os pés de molho. Abrindo a porta do quarto, pôs foi os olhos no marido, que estava em cima de alguém que lhe abria as pernas e que não era ela.

“Sabe como é”, disse meu interlocutor encolhendo os ombros, demonstrando talvez uma cumplicidade de quem já passou por coisa parecida, “o seu Américo não tava esperando que ela chegasse, tava feliz, suando”.

Eu bebia, comia e agora lhe prestava atenção. O meu desconhecido só falava. E falou que seu Américo ainda balbuciou que não era nada daquilo que ela estava pensando, que tudo não passava de um equívoco. A mulher, com a raiva que a situação lhe impunha, não queria saber de dar ouvidos àquela balela. “Arruma tuas coisas e te manda, salafrário!”, e batia portas.


Seu Américo, já um tanto amuado, puxava de cima do armário a mala grande para pôr as roupas quando outra vez tentou consertar o erro. O camarada (de quem nem fiquei sabendo o nome) me dizia que o pobre homem implorava: “Me deixa ficar, Marilda!”, e a mulher nada. “Eu faço tudo o que tu quiser, mas me deixa ficar”. Quando ouviu a promessa do marido, não perdeu tempo: “Faz tudo mesmo? Tudinho?”, e ele: “Tudinho! Quê que tu quer?”. Ela: “Tu fica. Mas vai ter que fazer ela me explicar como foi que vocês se conheceram”, e, dizendo isso, apontava o dedo para a impassível boneca inflável que seu Américo ia amando até ser interrompido pela esposa.

terça-feira, 12 de abril de 2011

plano

meu pai e eu. eu sou mais velho!
minha família
tem meu pai e eu

meus irmãos estão
a uma segura distância
e a distância
que se encontra a mãe
é demais irremediável

o cão late cocô
o gato mia comida
e o pai não pode fazer muito
enquanto não termina a carência
do plano de saúde

o velho
anda meu filho

minha família
é eu e meu filho

domingo, 10 de abril de 2011

sinfônico

sei tocar mal
um instrumento
muito bem

aperfeiçoo-me
nisso
a cada dia

violão trombone
piano se quiser

o que toco
ao meu toque
torna-se extensão do meu corpo

segunda-feira, 28 de março de 2011

Links

Ando feliz, por causa disto,

por causa disto

e também por causa disto!

Algumas coisas têm jeito.

sexta-feira, 18 de março de 2011

corpo

é numa língua
que não compreendo
a dor que te sinto

e passo os dias
a balbuciar

na casa
que era minha
que era tua
esbarro na tua ausência

e passo os dias
a arrastar móveis

e quando pego um livro
me vens inteira –
métrica e rima

e passo os dias
a te recitar

sexta-feira, 11 de março de 2011

liberdades

sempre gostei deste continho. por isso, publico ele de novo.

Cecília, morena do olho claro e vizinha de mesma rua, nunca me deu liberdades. Mas também nunca pareceu ter muito cuidado com elas.

Um dia, sem esperar, encontrei, perdida no banheiro da casa em que mora, uma de suas liberdades.

Sabendo de antemão que o gosto estava longe de ser gosto ruim, e que todos lá embaixo estavam ocupados com a morte de não sei quem da novela, tomei essa liberdade.

Cecília riu e nem se importou.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

sem perdão

é tão novinha
talvez nem quinze
parece

em sua boca
a palavra marido
soa de outro idioma

e já um filho
no ventre

quinze, se tanto
(menina) e tão atrasada
no colégio

conta nos dedos
as moedas

e vai a pé
pra casa da mãe joana

sábado, 12 de fevereiro de 2011

água

cheira a porto alegre
tua figura
e já há tanto tempo em mumbai

antes passaste por vigo
e em roma pisaste
onde césares pisaram

antes ainda caracas, cuzco
e texas deram-te a lua para tuas
caminhadas noturnas

e do outro lado da tela
por causa de uma câmera barata
mandas-me teu sorriso – água
que me mata a sede

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

reinvenções

tem coisas antigas
que não podemos dizer "são velhas"

tem escultor de vanguarda
que faz obras
com sucatas

e tem também eu
que escrevo com palavras já ditas
para ir deixando o poema
com arzinho de famoso

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

haicai para o akin

noite escura
estrelinha dorme
só com lua acesa

sábado, 29 de janeiro de 2011

dono

meu medo caladinho
me diz
com voz invisível é claro
e diz:
     onde com o pé direito
quando com o pé esquerdo

  lhe  
      vou  
          obedecendo

meu medo constrói-me
para menos
(afasta-me
do que posso?)

diante do meu medo
minha coragem é um cãozinho
que não viu aonde
jogaram o graveto

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

la macchina

“O elevador do Centro Administrativo é uma Ferrari”, era o que o sujeito pensava. E tinha razão. O troço subia tão rápido os vinte andares quanto descia um cuspe a mesma distância.

Numa sexta-feira em que se sentiu ousado, forjou coragem para perguntar a Roberta, a ascensorista preferida da rapaziada da repartição, se...

– Seu andar, senhor – avisou, metálica, aquele pedaço de carne.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Professores(as), nada disso!

Não leiamos aos alunos “Resíduo”, do amigo Drummond. Eles podem notar que há neste texto alguma coisa importante para a vida que virá; outros podem rir deles e de ti, professor. Também não devemos ler nenhum dos pequenosgrandes textos do Eduardo Galeano. Minha impressão é de que na casa dessa gurizada os pais, quando souberem, vão reclamar, e minha experiência com diretores(as) diz que eles(as) não querem saber de pais reclamando.

Não peçamos trabalhos também sobre qualquer texto. Dia desses de fim de trimestre pedi a uma turma de 7ª série que comentasse com seus pais sobre “Festa”, um continho do Wander Piroli que fala de ser feliz com pouco, de suar e ser feliz com o suor, e nem pais nem alunos quiseram se dar o trabalho de ler aquela obra de uma só página. Ninguém entregou o trabalho e ainda ficaram brabos com minha cobrança.

Lá por novembro, quando estivermos perto do Dia da Consciência Negra, ninguém, por favor, ninguém tenha a ideia de mostrar aos alunos qualquer poema do Oliveira Silveira. É bruto ter de ouvir, inclusive de colegas, que “isso é ofensivo demais”. Esqueçam, sejamos o que eles querem que sejamos: façamos a chamada no início, passemos as conjunções subordinadas, cobremos que todos saibam a conjugação do modo imperativo dos verbos menos usados, a transitividade verbal ou qualquer outra coisa que não o significado que toda base pede. Por dois motivos: porque você está mais perto de fazer algo mais fácil e porque está no programa exigido pela escola.

E no fim da aula escrevam atrás da folha de chamada o conteúdo dado, bem claramente. Essa é a real função do professor. Fazer chamada, dar a gramática e escrever o conteúdo dado. Fazer a prova e a recuperação. Não deixar doidos(as) os(as) diretores(as), os(as) orientadores(as), ninguém.

O mundo não necessita de gente com conhecimento; ele movimenta-se por si só!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A meia-noite de fato

São inúmeros os rituais de virada do ano que ficamos sabendo. Comer lentilha, vestir-se de branco, entrar no mar para pular ondas são alguns deles.

Minha tia, de vida triste por quase toda vida, de uns tempos para cá, nunca está disponível à meia-noite para dar/receber abraços e felicitações: mete-se embaixo do chuveiro com a intenção de entrar o ano limpa.

O pai de um amigo distribui pequenos envelopes contendo sementes de fruta do conde para os familiares colocarem na carteira; diz que a simpatia funciona para chamar dinheiro.

E num bairro distante daqui de Porto Alegre, um casal bastante próximo a mim decidiu, desde que se casaram, passar a virada do ano, no quarto deles, nus e enroscados. Dizem que querem o amor atado com nó bem firme. Por isso a hora de baterem as taças de champanhe pode variar entre antes ou depois da meia-noite. À meia-noite exatamente têm de estar grudados.

E porque há o horário de verão, não se importam de repetir o ritual uma hora depois, na verdadeira meia-noite.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

vira o disco

Vira o tétrico disco e segue adiante.
E daí que a vida matou o amor,
que enegreceu o que era somente cor,
que envelheceu teu coração infante?

Segue adiante e vira o tétrico disco.
Há de ter outras cores numa esquina
próxima. A tristeza não quer ser sina
tua. E, se for, inventa um melhor risco.

O coração, se estás vivo, não morre
e, mais, pode ser outra vez criança.
Inventa com o que vier teu porre

de coisa boa. Dança a nova dança
e diz à tristeza que a vida corre
sem o disco ruim da desesperança.
_______________
poema selecionado para andar de bus em 2011

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

numa lápide, há 2 anos

que junho mais outubro
o que te conheci
tudo era flores

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

9 de dezembro de 2008

para  Milena Dewes Gava, que num 9 de dezembro partiu

as palavras as frases
não ditas
os gestos não feitos
o amor desacontecido
a promessa não cumprida
o caminho não trilhado
as mãos não dadas
as danças que não houveram
a receita não experimentada
o filho que se não gerou
o sonho não compartilhado
risos
choros 
sustos
tudo

cabe dentro de mim
e não há quase quem note

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

noite

o gato atravessa a rua

como se ouvisse um tango

(
um tango doído

a lamber-lhe as
feridas)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

quadros, de novo

Óleo sobre tela, 12 de novembro de 2010. Depois de ver, num livro bem baratinho que comprei na Feira do Livro, algumas telas do grego Dimitris Anagnostopoulos, fiquei eu com vontade de passar a espátula numa tela.







Esta outra, também óleo sobre tela feita hoje, surgiu depois de ter visto, no facebook da Dani Osório, um desenho em preto e branco simples e bonito.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Jonathan cabeça oca


Jonathan mostrou às gurias da turma que não era apenas bom aluno, também sabia mexer as orelhas. Moveu uma, moveu outra, fez as duas mexerem-se ao mesmo tempo. Nenhuma das mocinhas, entretanto, queria se encantar por ele – gostavam de um outro, bobo e bonito.
Quando entendeu que saber brincar com as orelhas não garantia a atenção de que precisava naquela idade, perguntou a um colega:
– A que horas mesmo é a Educação Física?
– No quinto período – disseram.
Não passava das oito e vinte quando decidiu dedicar-se a outra habilidade que tinha. Enquanto fazia umas continhas fáceis de Matemática, Jonathan agora ia deslocar o próprio cérebro, levá-lo a passear pelo corpo.
Ele já vinha praticando a estripulia há uns meses em casa, no quarto, ao mesmo tempo em que obedecia às ordens que a mãe gritava da cozinha: “Arruma tua cama!” ou “Ajuda teu irmão nas tarefas dele!”
No colégio, nunca tinha tentado.
Primeiro, e sem muita dificuldade, levou o cérebro até o pescoço. Ali, para quem o visse (e ninguém o via), aquele inchaço parecia um bócio. Mas com a respiração ficando difícil, logo engoliu a bolota, que foi parar no meio do peito.
A massa cinzenta, dividindo espaço agora com um coração pulsante, fazia volume embaixo da camiseta. Mas o menino não tinha preocupações de guardar segredos, ninguém notava o Jonathan.
Antes do recreio, mandou, com um movimento de abdômen, o cérebro para a parte de cima da coxa direita. Enquanto todos guardavam os cadernos para esperar o sinal, ele avisou o professor que, durante o intervalo, ficaria na sala. Ali, sozinho, aproveitaria para fazer descer aquela gelatina mais um pouco.
Não foi tão fácil, porém. O cérebro empacou ao chegar no joelho.
Com o recreio terminado e todos de volta à sala, o garoto sentiu que precisaria de mais dedicação. Como quem pisa em pedal de bumbo, foi tocando a bateria necessária para fazer descer o deslocado órgão até a extremidade da perna. Nem a professora, tão acostumada à barulheira das salas de aula, nem os colegas, preocupados em produzir seus próprios barulhos, notaram a batucada que ele compunha. Aquele heavy metal chegou ao final minutos antes do fim do quarto período.
Ansioso que estava, Jonathan não quis esperar para ver se o convidavam para ficar no gol. Pela primeira vez, aproveitou-se do seu tamanho e se escalou para jogar na linha. Ok, disseram todos. Quem ousaria ir contra aquele sujeito grande, que à tarde trabalhava de ajudante de pai pedreiro?
Não demorou muito para ele mostrar do que era capaz, agora que tinha o cérebro na ponta do pé direito.
Os três primeiros lançamentos foram de deixar o atacante da sua equipe na cara do gol. Ninguém conseguia acreditar naquelas façanhas todas; não obstante, ele continuou a dar outros passes de gol fácil para coleguinhas pouco habituados com o jogo se consagrarem. Além disso, fez ele próprio uns dois, de chute colocado, sem chance para o outro goleiro. O jogo de colégio, segundo o professor Marcos, terminou em 17 a 4.
Depois de pegar a mochila para ir embora, Jonathan comentou que os quatro gols que o time levou foi culpa dele mesmo, que estava, naquele dia, um tanto cabeça oca.
Despediu-se do enxame de colegas, entrou no carro antigo do pai e logo colocou a mochila em cima do gordo pé direito. Só para disfarçar. O velho dele não era bobo, bem diferente da gurizada da escola.